Tem dois assuntos sobre os quais é muito difícil falar: o trânsito e as crenças indianas. Ensaiei postar algumas coisas antes, tentei fotografar situações de trânsito inusitadas, mas o fato é que simplesmente não consigo me empolgar com o resultado obtido, porque faltam habilidades de escrita e de fotógrafo. Por outro lado, deixar o blog sem nada sobre esses assuntos não seria legal, porque são aspectos que chamam demais a atenção de quem passa por aqui. Então, lá vai, e tudo junto no mesmo post.
Só prá dar uma idéia sobre como é esse troço de deus por aqui, só a religião hindu tem 300... MIL deuses! Basicamente cada elemento da natureza, cada sentimento, cada tipo de relação humana tem o seu deus correspondente. A importância varia segundo a importância do elemento associado para a sociedade, ex: procurei até o deus do rinoceronte pro Miguel que é um colecionador desse animal (só podia ser o Miguelito, não?). Os caras dizem: até tem, mas a gente não tem na loja porque ninguém compra. Só achei uma loja que tinha esculturas de rinos. Isso porque a rigor o rinoceronte, apesar de sua imponência e exotismo, não serve prá absolutamente nada, não se deixa domesticar e até antes da pólvora aparecer por cá nem jeito de matar tinha. Já imagem de elefante tem prá todo lado, assim como de vacas, bichos de grande valia (eles não comem vaca, mas usam todos os subprodutos, bebendo até o xixi).
Já o trânsito, só vendo prá crer. Consultem Mumbai no Google Maps: simplesmente não rola, não tá mapeado. Uma cidade de 17.000.000 de habitantes que ninguém conhece toda, não existem guias impressos, mapas, nada. A mesma coisa Hyderabad, que tem “apenas” 13.000.000 de almas. Então como se vai de um lugar pro outro?
Há várias estratégias: se for perto do hotel, peço a um funcionário que fica em frente deste com a função de gerenciar o trânsito, ele para o transporte, vê se o cara conhece o destino, negocia e embarcamos. Se for visitar uma empresa longe, aí ponho o motorista no telefone com o sujeito que está me esperando. Eles conversam até achar um ponto de referência que ambos conheçam perto do destino, negocio e seguimos. Qdo chega na referência, ou o sujeito está lá esperando prá ensinar como acaba-se de chegar ou usa-se de algum motorista que rode por ali para ensinar. A vantagem é que a turma é muito solícita, explica na maior paciência. Claro que essa prosa toda rola em híndi, telugo ou whatever but English, então dá um certo frio na barriga: ficar de noite, no meio do caos, sem idéia de prá que lado fica o destino ou a origem, guiado por um sujeito com quem no máximo vc consegue combinar um preço. Uma noite dessas pensei: uma aventura legal seria descer aqui e achar o hotel por minha conta... numa outra oportunidade eu faço, só prá dar assunto no blog.
Claro que, como toda estrutura social, há deuses e deuses. A trindade, sobre a qual já falei, é a mais importante: Brahma, o Início, Vishnu, a Manutenção e Shiva, o Fim. Shiva é, claro, associado à morte, mas esta é vista como evento para um recomeço (os caras acreditam em múltiplas encarnações), então não é uma coisa ruim. Pode-se festejar a morte, e isso acontece. Uma presença muito forte na cultura local é a dualidade das coisas, tudo tem o outro lado, nada é puramente bom ou ruim.
Tirando esses três, o deus mais popular pelo menos por onde andei é Ganesh, ou Ganesha (é que eles pronunciam o “sh” como se tivesse um “a” pequenininho depois, algo entre “sh” e “sha”). Até eu já achava ele legal desde criança, por causa da aparência inusitada, espiai:
Como cético, sempre acreditei que o homem faz deus à sua imagem e semelhança. Ganesha é a exceção que confirma a regra, né? Além do mais ele não me engana, aquela barriguinha ali só pode ser chopp...
Uma outra instituição indiana é o Atto, vejai:

Veículo de três rodas, três marchas, movido a diesel, gasolina, gás, álcool e o que mais a turma conseguir queimar, tem um guidon em vez de volante. É um meio termo de carro e moto, como Ganesha, um híbrido. A turma chama também de Tuktuk. Até tem taxímetro, mas os caras não ligam, então é na base da negociação. Qdo o cara do hotel negocia paga-se 20 rúpias (R$ 0,80) por uma corrida pequena. Na volta, como sou eu com a minha cara de gringo a prosa começa em 150 rúpias e eu acabo fechando em 50. D Bete fecha em 30.
A história do Ganesha, claro, não poderia deixar de ser inusitada. Filho de Shiva e Parvati, que é a reencarnação de Sáti, a primeira mulher de Shiva, não sendo, portanto, diferente desta (?!?).
Há controvérsias, muitas aliás, sobre como uma cabeça de elefante foi parar em seus ombros. A mais comum diz que Parvati engravidou de Shiva, que partiu para uma longa viagem. Ao voltar, deu de cara com um homem em sua casa, e confundindo-o com Big Richard, cortou-lhe a cabeça de um só golpe. Parvati, com toda sua imponência divina, vendo o acontecido, deu-lhe logo um pedala:
- Mas ó energúmeno, não vês que o agora descabeçado é teu próprio filho?
Shiva, então, partiu em busca da cabeça perdida, mas ela caiu tão longe, mas tão longe, que ele não a achou prá por de volta. Temendo a ira de Parvati (mulé braba que só a moléstia!) pela falta de solução para o problema e vendo um elefante que pastava tranquilamente por ali...
Outras histórias muito legais sobre a “elefântica” cabeça de Ganesha em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ganesha#Como_ele_obteve_sua_cabe.C3.A7a_de_elefante.3F
A “Shiva e Gajasura ” é sensacional.

Ganesha recebe os convidados na entrada da cerimônia principal do casamento em Mumbai.
Seguindo o conceito indiano da dualidade, os Tuktuks são ao mesmo tempo solução e problema para o trânsito. Na medida em que cabem em qualquer greta avançam sempre, nada os detém. Vão mais rápido do que qualquer carro local apesar de não passarem, creio, dos 50 por hora.
Também seguem uma regra de trânsito própria: para eles, não existem qualquer regra de trânsito. Se o guarda manda parar, os carros param, eles continuam. Se, por exemplo, ele está em uma avenida como a Paulista indo num sentido e tem que deixar um passageiro no passeio da outra mão, ele simplesmente acha uma brecha no canteiro, passa pro lado de lá e segue pela contramão até o ponto onde deve deixar o cliente. Para alertar sobre a manobra, simplesmente passa a seguir com a mão na buzina.
Em porta de cinema, shopping etc, eles aparecem em nuvem, às centenas. Aí, como o seu guarda lida com eles? Usando um “pau de espantar tuktuk”, porrete com “uns” um metro e meio de comprimento com o qual ele fartamente distribui bordoadas nos carrinhos. É a única ordem que eles atendem, além claro da clássica mão estendida como solicitação de seus serviços.
Tuktuk serve também para divulgar mensagem de utilidade pública. No caso: “guspe” espalha tuberculose; não “guspa”.
O Ganesha também tem várias responsabilidades na cultura hindu (indiano é o cabra que nasce na Índia, hindu é o crente na religião de mesmo nome). Antes de se iniciar qualquer atividade mais ou menos importante, pede-se a “bença” ao dito. Ele é visto na entrada das empresas, porque tem a ver com administração também, e é o destruidor da vaidade, egoísmo e orgulho.
Fiquei pensando sobre o motivo de, ocasionalmente, Ganesha e outros como Shiva serem representados com múltiplos braços e cabeças (vi um Ganesha com sete cabeças e dez braços). Inferi (ui!) que podia ser um troço tipo desenho do Geraldão (saudoso Glauco...), indicando movimento, atividade (um monte de pernas diz que o Geraldão está correndo, por exemplo). Ou então que o deus pode ter mais de um braço, mesmo, já que Shiva por exemplo aparece mais com três pares do que com um. Perguntei ao Ab e ele me esclareceu que nem uma coisa nem outra: na verdade a representação com mais de um braço é indicação de poder, quer dizer, não é que o hindu ache que o deus tem mais de dois braços, mas é uma forma do artista mostrar que o deus é poderoso. Uma razão simplória prá um mistério que me acompanhava desde a adolescência...

Ganesha dança.

O "motor de arranque" é essa alavanca aí no chão do tuktuk.

"Buzine, por favor"... ?!?
Esta mensagem é vista atrás de quase todos caminhões e caminhonetes, e também outros veículos. Achei que a idéia fosse irônica, tipo: “isso mêss, viado, buzina na minha orêia!”, mas nénão. A idéia é: se for fazer alguma manobra que tem a ver comigo, tipo me ultrapassar, mudar de faixa, ou mesmo me dar uma fechada para fazer uma conversão, buzine prá eu ficar sabendo”. Com isso elimina-se a necessidade de retrovisor, sinalização, seta... vai fazer merda? Buzine e vá em frente.
Gostaram do Ganesha e do Tuktuk? Não são umas gracinhas?
Prá terminar: vc compraria alguma coisa dessa camelô?

Na Índia nada é o que parece, nem o Tinhoso... dualidade, bicho, dualidade...